Sozinha no cinema

18/01/2010 por Vanessa M.

Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se. Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, um homem de aparentemente 40 anos entra na mesma sala e se acomoda uma fileira na frente numa poltrona diagonal a da mulher. O filme começa. A mulher toma um café, e o homem a observa, ela percebe e continua a olhar o início do filme. E o homem olha para trás sucessivas vezes e a mulher começa a se incomodar com aquela situação, em dado momento o filme fica tão interessante que a mulher simplesmente esquece da presença e dos olhares daquele homem tanto era seu interesse no filme. Quando de repente sente um ‘carinho’ em seu pé, e dá aquele pula da poltrona e nota que foi aquele homem. O homem sai da sala, a mulher pensa que com o tal susto visível a todos, o homem se sentiu constrangido ao ponto de ir embora. Então ela para de prestar atenção no filme e começa a divagar seu pensamento no abuso do tal homem: “O que ele pensa que esta fazendo? É um tarado na certa! Que preconceito mais ridículo será que uma mulher não se pode se dar o prazer de ir sozinha ao cinema? E só por estar sozinha tal homem se sente no direito de tocá-la sem ao menos pedir? E etc…”
A mulher se concentra novamente no filme, passado uns instantes o homem volta e senta na mesma fileira da mulher pulando apenas uma cadeira. A mulher já fica em alerta e pensa: ‘Tarado FDP!’. Nesse momento podemos dar o entendimento do filme como nulo. E ela pensa: ‘Devo mudar de lugar?’ e a sua personalidade fortíssima responde: “Claro que não! Definitivamente ele escolheu a mulher errada, posso até ter essa cara de boazinha com meus brincos de pérolas, meu coque preso desalinhadamente com pedrinhas de strass e meu vestido vermelho com sapatilhas e bolsa cor de creme. Mas definitivamente ele escolheu a mulher errada”.
Es que então o abusado homem toca o braço da mulher e faz um outro ‘carinho’. Num grande rompante a mulher se levanta e diz: ‘ TENHO VERGONHA SENHOR! CONTENHA-SE! SERÁ QUE UMA MULHER NÃO PODE MAIS VIR SOZINHA AO CINEMA QUE FICA SUCETÍVEL A ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO!? SE DE O RESPEITO E ME RESPEITE POIS EU NÃO O CONHEÇO! TENHA VERGONHA!
Há uma certa apreensão na sala do cinema, e começa um pequena burburinho. A mulher pede desculpas aos presentes e senta novamente para continuar a ver o filme o qual ela já não está entendendo nada. O homem claro, a essa altura já estava longe, saiu a passos largos e bem depressa do cinema, para não dizer correndo.
Nesse momento ao sentar, a mulher se sente vingada e com a certeza de que fez a coisa certa, e pensa em todas as mulheres que esse homem fez isso, elas caladas pelo constrangimento apenas mudaram de lugar. Mudar de lugar nesse caso seria calar-se e alimentar esse tipo de comportamento. Essa mulher não mudou de lugar para vingar todas as mulheres que passaram por esse constrangimento, ela não mudou de lugar para coibir esse constrangimento e para esse homem pensar duas vezes antes de fazer isso novamente. E pensou em toda a batalha da mulher desde o direito ao voto, a queima de sutiãs e em tudo que a mulher batalhou para conquistar até hoje, inclusive a sua liberdade não só sexual mas também moral. Portanto mudar de lugar, seria a perda de todos esses direitos.

Nesse momento o filme já estava pra lá do meio. Entendimento zero. Ela terminou de assistir e pensou que assistirá ao filme novamente, desta vez com toda a atenção que ele merece e sem interrupções.
Ao sair um homem começa a conversar com ela sobre o ocorrido e disse que presenciou tudo, pois também estava sozinho no cinema, e a parabenizou por sua reação imediata de coibir esses tarados. Ela agradeceu e ele ofereceu um café, ela disse que não, então ele lhe ofereceu companhia até o estacionamento, ou o metrô afinal poderia ser um tarado vingativo e mulheres corajosas como ela estão sempre sucetíveis à agressões físicas, pois já que não podem atacar seu intelecto tão bem resolvido, querem ferir sua pele frágil que ainda é o único indício de que ela é uma mulher. Uma corajosa e linda mulher.
Bem, depois desse discurso ela aceitou a escolta até o metrô. Onde foram caminhando lado a lado e falando sobre o ocorrido, sobre o filme e sobre o calor. Ela o agradeceu e eles não trocaram telefone, não por que ambos estavam de aliança, mas porque ainda existem gentilezas desinteressadas.

Carta sem selo

13/01/2010 por Vanessa M.

Você é como um grande lago, e eu sou o píer, você é todo o resto, toda água, e eu sou o píer. Mesmo consciente da sua má vontade de me ouvir e entender, lhe escrevo, não posso ir além, não peço para remeter-me, esta carta não é para chegar, é uma carta para ler e para ficar.

Você não me acharia covarde, você não acharia nada: você não me conhece. Alias, me mostrei para você e mesmo assim você continua não me conhecendo. Eu? Quem eu sou? Sou um vulto, um alguém, alguém que foi gentil assim como é com os garçons e os primos, com os pedestres e com os turistas. Eu fui e sempre fui e você não foi comigo. No terceiro minuto ao seu lado eu já sabia que era irremediável, e em vez de largar sua mão eu segurei e fui, deixei que você fosse, eu fiquei.

Pagamos pelos erros, pagamos pela imaturidade, pagamos por desejos opostos. Mas existe uma caixa de sapato ou gaveta com chave ou baú que estão lá cheios de lembranças, que peço por favor não esqueça, sim, guarde, deixe empoeirar mas não esqueça. Reconheça foram bons anos. Claro que nem tudo é sempre festa, afinal a normalidade é essa quando se há verdade. Não esqueça principalmente dos ensinamentos, todos, todos eles. E seja homem, reconheça, te fiz um excelente homem não? Tudo bem que caráter é uma coisa que não se muda, mas te fiz um excelente homem! Um excelente homem para padrões singelos e sem grandes pretensões. Mas um homem melhor. E como o homem melhor que se tornou, eu exijo que tenha pelo menos discrição, gratidão e preservação. Não preciso lhe pedir isso oras, seu berço não é ao contrário disto, portanto, comporte-se. Sei que odeia meu realismo e minhas broncas, mas preciso lhe puxar para a realidade, preciso lhe pedir maturidade. Sempre foi assim.

Os dias, os gestos, rituais cotidianos, surpresas, telas digitais, tudo corre, passa por mim, menos o susto deste amor. Absolvo-me pelos meus erros, já que você não o faz, e lhe absolvo pelos seus erros, sim, sim está perdoado, não era isso que você pediu junto com as flores? Aí está. Mas por favor não te quero mais.

E eu ainda encontro coragem para dizer a célebre frase: Não a mal que não venha para um bem. Obrigada por todo o mal viu? E por todo bem também não sou ingrata.

Pode me chamar de boçal que escreve tudo aquilo que deveria ser falado, e você é mais uma vítima que jamais vai ter entendido o seu desejo: saber? Sim, estou bem e feliz. Obrigada. Agora eu juro que quero me orgulhar de você rapaz! Me conte algo novo!

Você sabe, sou ligeira, estou sempre em movimento constante, não repara, eu quero vida demais, sou sedenta por vida. Quero mais que colchão novo e PS3. Tudo bem, você foi lento e incapaz de entender que era apaixonado por uma mulher impaciente, que suplicava com o olhar e não esperava, você se foi, em frente, quando deveria ter ficado e eu fui em frente quando deveria ter ficado. Tudo tem um preço e nós sempre pagamos, mesmo que seja a ‘prestações’.

Mando abraços e lembranças a todos.

De repente 30

20/12/2009 por Vanessa M.

E eu que achei o mês passado complicado, o que falar desse mês de dezembro? Primeiro que vivi esses últimos dias, segundo os astrólogos, meu inferno astral. Sim, a astrologia diz que seu inferno astral começa exatamente 1 mês antes do seu aniversário e só acaba no dia em que essa tão grata data que você veio ao mundo chega.

Aqui estou eu, pertinho dos 30. Não vou dizer que não tive uma crisezinha, estaria mentindo certamente. Mas depois de ouvir dos amigos que a melhor fase da mulher em todos os aspectos é quando ela chega aos 30 anos. Passei a ver com outros olhos essa minha fase de transição. Segundo eles, a mulher tem maturidade, é independente e já conhece bem seu corpo. E ainda continua com o frescor da juventude, com a sensualidade a flor de pele de quem sabe provocar e encantar, ou seja, pra eles a mulher de 30 é o must!!!! Confesso que depois de ouvir tudo isso diversas vezes, passei a gostar e esperar ansiosamente para fazer parte desse novo nicho de mulheres deusas. Hahaha. Claro que me olho no espelho e vejo o tempo em mim, àquelas linhas quase imperceptíveis no canto dos olhos já vão dando a forma do que acontecerá daqui a uns anos e o que antes me incomodava – como uma celulite a mais, a pele que agora necessita que cremes especiais e os cabelos brancos que parecem insistir em brotar – hoje sou mais condescendente eles, sou mais condescendente com tudo isso.

A maturidade, ah… a tão sonhada maturidade. A maturidade é um álibi frágil. Quando nos sentiremos maduros e completos realmente? Eu sinceramente, espero nunca descobrir a resposta para essa pergunta capciosa. Porque assim eu vou seguindo com essa alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo.
Passamos a vida inteira ouvindo conselhos que temos que aprender a ser mais flexíveis, a sermos menos dramáticas, a sermos mais discretas, aprendermos praticamente tudo. Até as coisas que a gente já sabe fazer, é preciso aprender a fazê-las melhor, mais rápido, mais vezes. A vida é um constante aprendizado. E o que a gente faz com aquilo que a gente pensava que sabia? Joga fora?

No caso das crianças aprender é fácil porque estão com a cabeça virgem de informações, há muito espaço para ser preenchido, muitos dados a serem assimilados sem a necessidade de cruzá-los. Mas e nós que já temos arquivos demais no nosso HD cerebral o que fazemos? Para buscar essa sonhada maturidade é preciso aprender coisas novas, mas antes precisamos deletar arquivos antigos. E isso não se faz com o simples apertar de uma tecla. Ou seja, é preciso desaprender tudo aquilo para aprender. Desaprender a ser tão sensível, para conseguir vencer mais facilmente as barreiras. Desaprender a ser tão exigente consigo mesmo, para poder se divertir com os próprios erros. Desaprender a ser tão coerente, pois a vida é inusitada por natureza. Desaprender a esperar que os outros leiam nosso pensamento: já está mas do que provado que isso não funciona com os homens.
A solução é voltar ao marco zero. Desaprender para aprender. Deletar para escrever em cima uma nova vida. Houve um tempo em que eu pensava que, para isso, seria preciso nascer de novo, mas hoje sei que dá pra renascer várias vezes nesta mesma vida. Basta desaprender o receio de mudar. E ai, é só renascer! Vanessa, bem vinda aos 30 e claro, renascida!!!

“Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…” Clarice

Desassossegada

29/11/2009 por Vanessa M.

Mês complicado esse, mês de provas na faculdade, provações no trabalho e mudanças, muitas mudanças: mudança de casa, mudança no coração e uma grande mudança no pensamento. Sim, por favor. Tenho motivos de sobra para meu leve abandono neste mês a esse diário que poucos arriscam a ler.
Durante esse período escrevi um texto a próprio punho, diria que impublicável. Quem sabe quando aquilo tudo não significar mais nada. Eu publique e assim fique livre dos julgamentos.

Meu coração foi um desassossego só. Um desassossegado que correu – e ainda corre- atrás da felicidade, talvez aquela felicidade improvável, que promete ser constante, e por isso sua raridade. Estive tão desassossegada que pensei acordada e dormindo, pensei falando e escutando, pensei antes de concordar e discordar e pensei com clareza uns dias e com a mente turva em outros. E esse dias turvos me custaram caro.
Sou uma desassossegada que cultiva fantasias, provavelmente irreais, uma desassossegada que quer um amor sublime, farto e eterno, nada apressada e cheio de ânsia e somente desejo, pois amores assim amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejam.

Segue Trecho: O Livro do Desassossego Fernando Pessoa
“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto {…} De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo…Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter…”

Para sempre

12/11/2009 por Vanessa M.

Como posso explicar o porque de tanta paixão, como posso saciar meu desejo. O que é gostar? O que é amar? É inventar a vida como se antes nada existisse. É queimar como fogo em tempestade. É ser pego de repente sem esperar. É querer estar presente sem poder estar. É ser criança e acreditar.

Poderei sonhar ou viver um sonho. Poderei chorar ou enxugar o pranto
Poderás amar e ser amado. Poderás adormecer em um porto seguro
Poderás acordar quando quiser.

Quero falar palavras verdadeiras. Quero provar seu suor. Quero escutar o vento que vem de longe. Quero realizar teus desejos. Quero protegê-lo. Quero respeitá-lo. Quero tê-lo como amigo, como criança, como serpente. Mas sempre presente ,sempre amante . Sempre ali, me presenteando com sua imagem. Com sua beleza, com sua verdade. Com sua ternura, com sua força. Com seus medos e receios, e com sua coragem ….é claro sua coragem….

Com seus braços e abraços. Com seus lábios e beijos. Com suas palavras e conselhos. Com seus gestos e apego. Com a vontade de ser feliz. Por favor, eu te peço, continue sendo assim. E não me condene à solidão…Por querer ti tanto bem…