Uma mulher entra no cinema, sozinha. Acomoda-se. Desliga o celular e espera o início do filme. Enquanto isso, um homem de aparentemente 40 anos entra na mesma sala e se acomoda uma fileira na frente numa poltrona diagonal a da mulher. O filme começa. A mulher toma um café, e o homem a observa, ela percebe e continua a olhar o início do filme. E o homem olha para trás sucessivas vezes e a mulher começa a se incomodar com aquela situação, em dado momento o filme fica tão interessante que a mulher simplesmente esquece da presença e dos olhares daquele homem tanto era seu interesse no filme. Quando de repente sente um ‘carinho’ em seu pé, e dá aquele pula da poltrona e nota que foi aquele homem. O homem sai da sala, a mulher pensa que com o tal susto visível a todos, o homem se sentiu constrangido ao ponto de ir embora. Então ela para de prestar atenção no filme e começa a divagar seu pensamento no abuso do tal homem: “O que ele pensa que esta fazendo? É um tarado na certa! Que preconceito mais ridículo será que uma mulher não se pode se dar o prazer de ir sozinha ao cinema? E só por estar sozinha tal homem se sente no direito de tocá-la sem ao menos pedir? E etc…”
A mulher se concentra novamente no filme, passado uns instantes o homem volta e senta na mesma fileira da mulher pulando apenas uma cadeira. A mulher já fica em alerta e pensa: ‘Tarado FDP!’. Nesse momento podemos dar o entendimento do filme como nulo. E ela pensa: ‘Devo mudar de lugar?’ e a sua personalidade fortíssima responde: “Claro que não! Definitivamente ele escolheu a mulher errada, posso até ter essa cara de boazinha com meus brincos de pérolas, meu coque preso desalinhadamente com pedrinhas de strass e meu vestido vermelho com sapatilhas e bolsa cor de creme. Mas definitivamente ele escolheu a mulher errada”.
Es que então o abusado homem toca o braço da mulher e faz um outro ‘carinho’. Num grande rompante a mulher se levanta e diz: ‘ TENHO VERGONHA SENHOR! CONTENHA-SE! SERÁ QUE UMA MULHER NÃO PODE MAIS VIR SOZINHA AO CINEMA QUE FICA SUCETÍVEL A ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO!? SE DE O RESPEITO E ME RESPEITE POIS EU NÃO O CONHEÇO! TENHA VERGONHA!
Há uma certa apreensão na sala do cinema, e começa um pequena burburinho. A mulher pede desculpas aos presentes e senta novamente para continuar a ver o filme o qual ela já não está entendendo nada. O homem claro, a essa altura já estava longe, saiu a passos largos e bem depressa do cinema, para não dizer correndo.
Nesse momento ao sentar, a mulher se sente vingada e com a certeza de que fez a coisa certa, e pensa em todas as mulheres que esse homem fez isso, elas caladas pelo constrangimento apenas mudaram de lugar. Mudar de lugar nesse caso seria calar-se e alimentar esse tipo de comportamento. Essa mulher não mudou de lugar para vingar todas as mulheres que passaram por esse constrangimento, ela não mudou de lugar para coibir esse constrangimento e para esse homem pensar duas vezes antes de fazer isso novamente. E pensou em toda a batalha da mulher desde o direito ao voto, a queima de sutiãs e em tudo que a mulher batalhou para conquistar até hoje, inclusive a sua liberdade não só sexual mas também moral. Portanto mudar de lugar, seria a perda de todos esses direitos.
Nesse momento o filme já estava pra lá do meio. Entendimento zero. Ela terminou de assistir e pensou que assistirá ao filme novamente, desta vez com toda a atenção que ele merece e sem interrupções.
Ao sair um homem começa a conversar com ela sobre o ocorrido e disse que presenciou tudo, pois também estava sozinho no cinema, e a parabenizou por sua reação imediata de coibir esses tarados. Ela agradeceu e ele ofereceu um café, ela disse que não, então ele lhe ofereceu companhia até o estacionamento, ou o metrô afinal poderia ser um tarado vingativo e mulheres corajosas como ela estão sempre sucetíveis à agressões físicas, pois já que não podem atacar seu intelecto tão bem resolvido, querem ferir sua pele frágil que ainda é o único indício de que ela é uma mulher. Uma corajosa e linda mulher.
Bem, depois desse discurso ela aceitou a escolta até o metrô. Onde foram caminhando lado a lado e falando sobre o ocorrido, sobre o filme e sobre o calor. Ela o agradeceu e eles não trocaram telefone, não por que ambos estavam de aliança, mas porque ainda existem gentilezas desinteressadas.

